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sábado, 15 de novembro de 2008

OPERAÇÃO MILAGRE - A SOLIDARIEDADE CENSURADA

OPERAÇÃO MILAGRE - A SOLIDARIEDADE CENSURADA


Por qual motivo a grande mídia mundial silencia perante o maior programa de solidariedade médica da história, na qual 1.314.000 pessoas de 33 países foram operadas da visão? Chegaram praticamente cegas e voltaram para seus países com boa visão! Esse programa está sendo conduzido pelo governo de Cuba no âmbito da ALBA (Alternativas Bolivariadas para as Américas). Assista ao vídeo clicando na imagem.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

CUBA: os desafios de um grande povo “ilhado”

CUBA: os desafios de um grande povo “ilhado”

Por Frei Gilvander Moreira

Chico Buarque, cronista das esperanças políticas do seu tempo, ao falar sobre as suas viagens a Cuba, registrado no terceiro DVD da série retrospectiva de sua obra, ironiza: “antigamente, o passaporte brasileiro dizia: válido para todos os países com exceção de Cuba. Dá vontade de ir, né?”

Até bem pouco tempo, voltar ao Brasil após uma visita a Cuba podia custar alguns aborrecimentos. O próprio Chico Buarque foi protagonista de um fato que acabou virando manchete nos jornais. O jornal “Folha de São Paulo”, no dia 21 de fevereiro de 1978, trouxe a seguinte notícia: “CHICO VOLTA DE HAVANA E É DETIDO. Chico Buarque, sua mulher Marieta Severo, o escritor Antonio Callado e sua mulher Ana Arruda foram detidos ao chegar, na manhã de ontem, em aviões diferentes, no aeroporto do Galeão. Como foi divulgado pela imprensa, Chico Buarque e Callado integraram o júri de um prêmio literário em Havana, Cuba, na semana passada. Como eles, fizeram parte desse júri o jornalista Fernando Morais, também brevemente detido ao chegar em Congonhas, sábado, e o escritor Inácio de Loyola, que presumivelmente ainda não regressou ao País. O Brasil não tem relações diplomáticas com Cuba, mas um advogado ouvido ontem no Rio opinou "não haver nenhum crime em se visitar um país”. A Polícia carioca apreendeu a bagagem dos detidos, e ambos foram avisados de que serão convocados para novos depoimentos.”

Afora os constrangimentos, nem mesmo na época da ditadura militar era crime visitar Cuba. No entanto, falar de Cuba, do socialismo e do grande líder revolucionário Fidel Castro ainda causa muito constrangimento e indignação. A mídia, geralmente, desfila um rosário de preconceitos acerca do regime político cubano e da história da Revolução. Todavia, mesmo correndo o risco de causar constrangimentos e indignação, retornando agora ao Brasil, após passar nove dias em Havana, quero assumir o compromisso e a responsabilidade de compartilhar a experiência de conhecer de perto a resistência e a determinação desse povo que luta contra o capitalismo e contra o imperialismo criminoso dos Estados Unidos da América. Abaixo destaco alguns aspectos presentes no modo de vida em Cuba e que, no meu entendimento, são relevantes para pensarmos no socialismo hoje para uma vida melhor em sociedade. Eis, abaixo, dez pontos que dão um panorama de nove dias em Cuba: primeiras impressões; o impacto já ocorre na chegada; a relação de Cuba com os demais países da América Latina; contra o bloqueio, muita criatividade; exercício do poder em Cuba; sistema de Saúde socialista; telenovelas brasileiras em Cuba; cristãos em Cuba; produção de alimentos e economia cubana.


1) Primeiras impressões

De 19 a 28 de dezembro (de 2006) realizei um sonho de mais de 20 anos: pisar no solo sagrado de Cuba e conviver alguns dias com os cubanos, esse povo heróico que defende ainda nos dias atuais o socialismo, mesmo quando para muitos a única resposta possível para a humanidade é a chamada democracia burguesa e o capitalismo.

Antes de emitir qualquer opinião sobre Cuba acredito ser relevante ter em mente dois aspectos fundamentais: o primeiro, a localização estratégica da ilha que fica a apenas 150 km do maior império da atualidade. Esta é a distância que separa Cuba do estado da Flórida nos Estados Unidos. O segundo aspecto é o fato de o país ter sofrido, e continuar sofrendo, ao longo de sua história, permanentes tentativas de invasão, exatamente em vista de sua posição estratégica na entrada do golfo do México.

Cuba é uma ilha de 110.000 Km2, 20% do estado de Minas Gerais, estreita e comprida, assemelhando-se a um jacaré. Com 11 milhões de habitantes é uma ilha encantada por sua beleza natural e encantadora pelo seu povo. Cristóvão Colombo, ao chegar em Cuba, em 1492, já afirmara: “Esta é a terra mais bela que olhos humanos viram.”

Nos dias atuais, pode-se afirmar que em Cuba, além de vermos coisas que nossos olhos nunca tinham visto antes, vamos sentir uma grande nostalgia diante de tantos objetos antigos que fizeram parte do nosso cotidiano em um tempo em que nossas vidas eram bem mais simples e livres do atual estresse em que vivemos nos dias atuais. Vamos nos deparar com coisas totalmente inusitadas e criativas: táxis em bicicletas, carros remendados com madeira e plásticos, ônibus construídos sobre antigas carretas, chamadas “camelos”. Tudo isso permite àquele povo resistir, com intrepidez e dignidade ao criminoso e diabólico bloqueio estadunidense. Convivem, no mesmo cenário, recursos materiais limitados, tão abundantes nos paises ocidentais, com o que há de mais moderno e avançado na criação humana. Seja nas ciências, nas artes, nos esportes, os cubanos destacam-se sempre.

Ouvi relatos e reflexões que meus ouvidos nunca tinham ouvido. Procurei ouvir mais do que emitir qualquer parecer acerca do modo de vida que surge e que se atualiza desde o triunfo da Revolução em 1959. Aliás, este um fato que gera tanta especulação: as possibilidades de sobrevivência do regime socialista cubano diante da globalização, da pressão capitalista em todos os moldes e, principalmente, após a morte de Fidel.

Com ouvido atento procurei descobrir a beleza daquela grande nação. O tempo todo tinha a sensação de estar na ilha imaginária de Thomas Morus, UTOPIA, na qual o autor, inspirado na República de Platão, pensa uma sociedade ideal em todos os sentidos, solidária, sem propriedade privada, sem violência e com dignidade para todas as pessoas. No entanto, não tenho a pretensão de defender a existência de uma sociedade perfeita. O meu propósito neste ensaio é mostrar que, somando o que há de bom em Cuba, fica um grande saldo em vista das limitações existentes, sobretudo se levarmos em conta que a maioria das carências, impostas ao povo, advém não do regime político socialista e sim do bloqueio da política imperialista dos Estados Unidos, que causa enormes danos à economia cubana.

2) O impacto já ocorre na chegada

Na chegada a Havana, capital de Cuba, já é possível sentir a diferença de se estar em um Estado socialista. Do aeroporto José Marti ao centro da capital há um percurso de aproximadamente 30 quilômetros. Neste trajeto somos presenteados com uma delicada e bem cuidada paisagem, onde não há sequer uma propaganda comercial. Nas ruas de Havana, ocorre o mesmo, nenhum outdoor que estimule o consumo. Só podem ser vistas, e poucas, as propagandas do regime socialista. Lembro-me de algumas: “Neste momento mais de 2 milhões de crianças estão passando fome nas ruas do mundo, nenhuma delas é cubana.” “Pela vida. Não ao bloqueio econômico dos Estados Unidos.” “Che Guevara, teu exemplo é uma luz na nossa marcha socialista.” “Em Cuba, 100% das crianças estão na escola.”

Em 1961, após uma intensa campanha de alfabetização, Cuba foi declarada território livre do analfabetismo. Vimos pelas ruas pessoas simples e trabalhadoras que nos dão a certeza da existência, naquele território, de um povo educado e saudável. Também chama a atenção a enorme diversidade, nas pessoas, nas cores dos carros, no modo de vestir. Pessoas alegres e que falam com muito orgulho do seu país. Determinados mesmo quanto à independência e da opção e luta obstinada pelo socialismo e pela soberania.

Nos quatro canais de TV abertos, todos estatais - há vários outros canais regionais –, não há também propaganda comercial. Só há programas culturais, informativos e esportivos. Poucos são os programas de entretenimento, dentre eles uma novela brasileira, atualmente, “Senhora do Destino”, à qual os cubanos se referem com grande entusiasmo. Gostam muito de telenovelas e radionovelas. Vale até lembrar que se orgulham de terem criado as radionovelas, a primeira que se tornou famosa no Brasil, “O direito de nascer”.

3) A relação de Cuba com os demais países da América Latina

A eleição de Hugo Chaves, na Venezuela, criou novos laços entre os países da América Afrolatíndia e desenvolveu uma outra forma de solidariedade entre as nações do continente. Cuba recebe o petróleo venezuelano em troca do apoio na área da saúde. São milhares de médicos e outros profissionais trabalhando na Venezuela. Milhares de venezuelanos estão indo a Cuba para fazer tratamento de saúde. A excelência cubana na área da saúde também tem ajudado muitos outros países como o Brasil e a Bolívia.

Ao visitar o Museu da Revolução, antiga sede presidencial do ditador Fulgêncio Batista, encontramos um grupo de jovens bolivianos, orgulhosos do governo Evo Morales. Aqueles jovens informaram que, logo após assumir a presidência, Morales enviou 400 jovens para cursar medicina em Cuba. Formados, serão missionários de uma revolução no sistema de saúde boliviano e poderão trabalhar também em outros países, voluntariamente.

Na ELAN – Escola Latina Americana –, criada em 1999, há 4 mil jovens latino-americanos cursando medicina. O estado cubano custeia tudo: além dos professores e da manutenção da universidade, oferece hospedagem, alimentação, livros, cadernos e ainda dá uma ajuda de custo mensal. Os livros usados são devolvidos ao final de cada ano para que outros estudantes possam estudar neles. É interessante registrar: enquanto nos Estados Unidos gastam-se 350 mil dólares para formar um médico, em Cuba 120 mil dólares são suficientes.

Há milhares de estudantes estrangeiros em Cuba, na graduação e na pós-graduação. Só do Brasil são 700 jovens, 70 dos quais são enviados pelo MST para fazer medicina e outros cursos.

4) Contra o bloqueio, muita criatividade

Cuba foi inicialmente uma colônia espanhola. Em 1898 foi ocupada militarmente pelos Estados Unidos. A partir de então, cresceram os negócios dos norte-americanos na ilha que somente em 1902 tornou-se um país independente. O destino de Cuba foi profundamente marcado pela influência norte-americana tanto no plano político, mediante o apoio a partidos ou grupos, quanto no econômico. A beleza caribenha e a localização estratégica atraíram também para o local o lazer e a orgia dos ianques. Também uma chaga que gera um grande incômodo: uma base militar dos Estados Unidos em território cubano, a base de Guantánamo. Essa base militar resultou das negociações para a retirada das tropas americanas na independência.

Após a Revolução em 1959, muitos cubanos migraram para os EUA e por discordar do regime são, ainda nos dias atuais, manipulados e financiados pelo governo estadunidense com o intuito de derrubar o regime liderado por Fidel Castro. Hoje, incluindo os descendentes, há mais de um milhão de cubanos que vivem naquele país. A grande maioria colabora efetivamente para a economia cubana enviando dólares para os parentes que moram na ilha. Uma minoria, conhecida como a máfia cubana de Miami, que perdeu dinheiro e poder após a Revolução de 1959, conspira o tempo inteiro contra a política socialista. Essa pressão de uma minoria cubana interessa à política imperialista dos Estados Unidos que usa de artifícios para isolar o último país de resistência socialista existente no planeta.

Basta ver que quando um estrangeiro chega clandestinamente aos Estados Unidos é imediatamente mandado de volta ao seu país. Os cubanos são a exceção. Para incentivar a saída de Cuba, o governo dos Estados Unidos acolhe como cidadãos os cubanos que chegam ao seu território. Ou seja, os únicos estrangeiros que têm visto de permanência incondicionado nos Estados Unidos são os originários de Cuba.

O bloqueio dos Estado Unidos a Cuba consiste na proibição do comércio dos produtos cubanos nos Estados Unidos e a venda de qualquer produto norte-americano a Cuba. Além é claro da proibição do uso de tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos. Não existe relação diplomática e comercial entre os dois países. Isso gera enormes dificuldades à economia cubana devido ao custo do transporte que é acrescido a todos os produtos que vêm de países bem mais distantes, como os países europeus, o Canadá ou China. Cuba tem de pagar sobretaxas para importar produtos norte-americanos de outros países.

Deste modo, a única forma de o governo cubano sobreviver ao bloqueio, é usar de muita criatividade e contar irrestritamente com o apoio de um povo educado e que conhece muito bem a sua história.

Vimos muita criatividade no sistema de transporte cubano: táxis em triciclos, uns motorizados, como os cocotáxis para os turistas, outros movidos somente com a força do pedal por valentes condutores, que levam passageiros a pequenas distâncias. Automóveis que foram sofisticados na década de 1950 e que continuam rodando suntuosos pelas avenidas de Havana. Pequenos automóveis Fiat, parecendo miniaturas dos antigos 147. Carros russos, como o Lada – das décadas de 1970 e 1980. Alguns seminovos em uma grande variedade de tipos e cores. Micro pick-ups com apenas 03 rodas, ônibus antigos tipo jardineira e os “camellos”, carretas com a carroceria transformada em “super-ônibus”, como base para o transporte coletivo dos trabalhadores, quase de graça. Incrível a diversidade de tipos e cores dos meios de transporte em Cuba.

Vimos um grande número de pessoas pegando carona e muitos motoristas oferecendo carona, especialmente nos horários de pico. Depois ficamos sabendo que cerca de 80% dos automóveis são estatais e são orientados a dar carona. Os carros particulares, que são poucos, também cultivam essa prática de dar carona. É muito difícil ver uma pessoa sozinha no veículo. Normalmente andam duas, três ou quatro pessoas no mesmo automóvel, inclusive nos táxis. Percebemos que dar e receber carona é um valor socialista e faz parte da cultura, é o normal. Muita gente vai trabalhar e volta sem ter que pagar pelo transporte. Não existe o menor receio de violência como seria de se esperar no Brasil. Também uma forma bastante inteligente de economizar energia. O petróleo é muito oneroso para o governo cubano.

E desta e de outras maneiras Cuba vai driblando o bloqueio norte-americano.

5) Exercício do poder em Cuba

Conversamos com taxistas, médicos, lixeiros, comerciantes, professoras, psicólogas, agrônomos, advogados. Não vimos nem uma pessoa reclamar de Fidel Castro, nem do socialismo, nem da Revolução cubana. Pelo contrário, ouvimos o reconhecimento e a constatação de que a Revolução deu dignidade para milhares de pessoas em Cuba. Conforme já afirmamos acima, o diabólico bloqueio econômico que o (des)governo dos Estados Unidos impôs a Cuba desde 1961 é identificado pelo povo cubano como o responsável pelas dificuldades enfrentadas em todos os níveis.

Em Havana as praças públicas são realmente públicas. O povo circula à vontade. Não vimos ninguém alertando sobre riscos de roubo e assalto. A população está desarmada. Afirmam que existem armas guardadas em vários locais e que podem ser disponibilizadas à população em caso de invasão dos Estados Unidos. “Aqui não há delinqüentes e nem delinqüência. Aqui temos paz social, fruto da justiça social existente. É muito raro acontecer um assassinato ou um assalto”, diz uma criminóloga cubana. E acrescenta: “Em caso de invasão, cada um dos cubanos sabe onde deve estar imediatamente.”

Perguntamos a várias pessoas: “Como é exercido o poder em Cuba? Fidel manda muito?” Explicaram-me: “A base do exercício do poder em Cuba está nos CDRs – Comitês de Defesa da Revolução. Esses comitês que surgiram para proteger a população das tentativas de golpe, existem em todas as quadras das cidades e também na zona rural. No CDR todas as pessoas da quadra estão cadastradas. Fazem assim um retrato de toda a população. Sabem quantas crianças, quantos idosos e gestantes existem no país, com uma margem de erro insignificante. Há em cada comitê um/a presidente/a, um secretário/a e um vigilante que é o responsável pela saúde, educação das pessoas que moram naquele local. Além do CDR, há o delegado de circunscrição que exerce a função como voluntário, isto é, não recebe salário para desempenhar a função. De três em três meses esse delegado presta contas ao povo. Vinte delegados escolhem um delegado de território.

A organização política cubana inclui também uma Assembléia municipal (poder executivo + legislativo) que cuida de finanças, esporte, educação, saúde, moradia, comércio, transporte, ruas e estradas, comunidades. Existem ainda as Assembléias provinciais (14 províncias).

Da Assembléia Nacional fazem parte 601 deputados. Vale destacar que recebem apenas o necessário para viver. Exercem o mandato de deputado e continuam trabalhando na sua profissão e por isso recebem salário, não pelo fato de serem deputados, mas como padeiros, professores, médicos, ou qualquer outra profissão que exerçam. Em Cuba uma pessoa é reconhecida na sociedade pelo que faz em prol da coletividade e não pelo que consegue angariar para si mesma, como pela capacidade de ganhar dinheiro ou ter sinais externos de riqueza.

Há um Conselho de Ministros com um presidente, que agora é Ricardo Alareni. As grandes decisões nacionais são tomadas na Assembléia Nacional. Fidel Castro é, desde o triunfo da Revolução em 1959, reeleito como deputado. É o primeiro secretário do PCC e comandante das Forças Armadas. Ilude-se quem pensa que Fidel decide tudo sozinho. É claro que ele tem muita influência nas decisões por razões históricas e pela idoneidade moral que adquiriu e conserva.

Conforme vemos, há uma rede de participação que vai dos CDRs até ao Comitê Central da Revolução. Essas pessoas são integrantes do Partido Comunista de Cuba, mas só se ingressa no Partido após verificar com rigor a idoneidade e o interesse da pessoa pelo bem comum.

6) Sistema de Saúde socialista

“Cuba é uma fábrica de médicos”, exclama Mongui, um cubano que se sente embaixador do Brasil em Havana. Na medicina a excelência cubana tem o seguinte objetivo: conquistar os melhores remédios para todos com o custo mais econômico possível e de forma sustentável. O Ministério da saúde, as faculdades de medicina e os médicos incentivam e incluem cada vez mais todos os tipos de medicina alternativos e naturistas – homeopatia, geoterapia, ervas medicinais, massagem. Prioriza-se muito a medicina preventiva que passa necessariamente por uma boa alimentação.

Há 60 mil médicos cubanos trabalhando voluntariamente em missões internacionalistas, em 69 países, contribuindo com o resgate da saúde de milhares de pessoas. Só na Venezuela estão mais de 15 mil.

Na Venezuela, atualmente, existem cerca de 20 mil médicos cubanos alavancando uma revolução no sistema público de saúde. São responsáveis pelo atendimento primário da população, algo parecido com o médico de família. Estão nas favelas e bairros pobres; lá vivem e atendem com competência e dedicação os pobres. Recordo-me de ter ouvido em Caracas, no 6o Fórum Social Mundial, três jovens camelôs dizendo com veemência: "Por mais de 50 anos, os médicos venezuelanos recém formados se recusaram a ir para interior, para os bairros, para a periferia. Só queriam ficar na capital, ganhar dinheiro às custas da dor. Agora, com Hugo Chávez, eles tiveram sua chance de ajudar o povo. Não quiseram. Então foi preciso apelar para a solidariedade. Vieram os médicos de Cuba e estamos tendo acesso à saúde nos lugares mais distantes e pobres". Ainda, em Caracas, em conversa com duas médicas e um médico, ouvimos, entre tantas coisas, o seguinte: “Não viemos aqui para ganhar dinheiro, mas por amor ao próximo. Estudamos medicina para cuidar das pessoas, nunca para ganhar dinheiro. Quando terminamos o curso de medicina em Cuba, fazemos um juramento de cuidar sempre da vida ameaçada em Cuba e em qualquer país do mundo. Quando se é de esquerda, socialista, somos mais cristãos, pensamos mais no próximo. Todo o povo do mundo é meu próximo, é minha família. Somos e devemos nos comportar todos como irmãos. Vivo para servir a sociedade. Aqui na Venezuela, recebemos apenas uma ajuda de custo para pagar metrô, ônibus coletivo e comprar alimentos e alguma coisa mais necessária.” O estipêndio recebido pelos médicos cubanos não chega a um salário mínimo da Venezuela, que é cerca de R$405,00.

Mesmo com as dificuldades internas para a produção de alimentos, em Cuba, todas as crianças de 0 dia a 7 anos de idade e as gestantes têm garantido um litro de leite por dia.

Cuba é administrada considerando todos os cubanos como sendo uma só família. Fidel é o pai de todos e os cubanos são todos irmãos e irmãs. Por isso todos são tratados com igualdade de oportunidades. Há prioridades que devem ser satisfeitas: alimentação, saúde, educação, transporte público, cultura e esporte. As reivindicações pessoais são atendidas, desde que sejam viáveis e no interesse de todos. Por exemplo, só tem computador individual – o que é um “luxo” em Cuba – quem está desenvolvendo um trabalho social relevante e que precisa deste instrumento. Só será permitido comprar celular quando se encontrar um sistema que seja acessível a todos. E estão quase conseguindo.

O povo cubano é um povo sadio. Come-se o necessário para viver, sem exageros. Não vimos sequer uma pessoa obesa. A alimentação é orientada por nutricionistas e contém todos os nutrientes necessários para uma boa saúde.

Norma, uma psicóloga cubana, passou três meses no Rio de Janeiro. Contou-nos que convidada para participar de diversos churrascos e rodízios, estranhou muito diante de tanta fartura de carne e tão pouca fartura na cultura e nas artes. Quando quis ir assistir a um show de Gilberto Gil no Canecão avisaram-lhe que era muito caro. Ela revelou: “Entre comer muito, participar de rodízios, prefiro alimentar meu espírito. O que mais nos alimenta são os bens espirituais: cultura, arte, esporte e trabalho voluntário, tudo isso dentro do espírito revolucionário socialista. A sociedade capitalista enche a barriga das pessoas, mas deixa o espírito vazio .”

Vimos que a agricultura está diretamente associada à saúde. Os alimentos são produzidos de forma orgânica e ecológica. Usa-se muito pouco produtos químicos na agricultura. Está em curso um grande projeto de reflorestamento com árvores nativas e exóticas.

7) Telenovelas brasileiras em Cuba

Em Cuba, a TV veicula uma telenovela por noite. Uma noite, uma telenovela cubana e na noite seguinte, uma telenovela brasileira ou de outro país. Antes da veiculação, uma comissão do setor de relações internacionais analisa a telenovela estrangeira, dá um parecer, corta cenas de sexo, de banalização.

Perguntei a várias pessoas cubanas se já tinham pensado sobre os possíveis efeitos das telenovelas brasileiras sobre o povo cubano. Caridad, psicóloga do setor de relações internacionais da TV cubana me explicou: “A programação dos 4 canais cubanos é basicamente cultural. O povo estava pedindo mais programas de entretenimento. É muito melhor passar uma telenovela latino-americana do que filmes dos Estados Unidos, filmes que geram uma cultura de violência e de consumo. A questão central não é veicular ou não uma novela. A questão é como veicular. Em Cuba as telenovelas são veiculadas sem nenhum comercial, apenas uma por dia. Assim o/a telespectador/a acompanha mentalmente o desenrolar da ficção. No Brasil, são muitas novelas por dia e são envenenadas pela propaganda intermitente, entremeada na novela. Quando o/a telespectador/a começa a raciocinar, interrompe-se a novela e joga uma propaganda. A pessoa deixa de pensar na novela e começa a pensar na propaganda. Esta mistura de novela com propaganda faz um estrago mental em quem está assistindo. Fica como abelha tonta. É impedida de pensar. Resultado: a novela vira tranqüilizante. Além disso, em Cuba o povo é culto e não aceita pacificamente o que é apresentado na telinha. Também não encontra na realidade o luxo espelhado nas telenovelas. Fica só no ficção.”

8) Cristãos em Cuba

Participamos de uma celebração na Igreja Batista, presidida pelo pastor Raul Soares, deputado do PCC – Partido Comunista de Cuba. De origem camponesa, já está no 3o mandato como deputado. É um dos três pastores deputados em Cuba. Além de Raul, há um outro da igreja episcopal e outro presbiteriano. Raul Soares nos disse: “Não há contradição entre ser pastor e ser deputado socialista. Em Cuba 80% das pessoas se declararam religiosas. Acreditam em Deus. Seguimos o testemunho do Concílio Vaticano II, das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação. Os pobres nos evangelizam. Em 1959, a Igreja Católica cubana traiu os pobres, a Jesus e a Deus, porque se colocou contra a Reforma Agrária que Fidel Castro estava fazendo. Sou um pastor de esquerda. Espero que Lula não traia os pobres e que faça uma verdadeira reforma agrária no Brasil. Não há saída para a humanidade fora do socialismo. Precisamos melhorar o socialismo. Capitalismo é anti-cristão e anti-humano.”

Conhecemos o Centro Martin Luther King, com sede nas dependências da Igreja Batista. A partir da pedagogia de Paulo Freire, esse centro tem ajudado a construir cerca de 60 casas populares, por ano, em mutirão com a participação ativa dos sem-casa. Esse centro participa de brigadas populares de limpeza de praças públicas em trabalho voluntário.

9) Produção de alimentos

Sentimos como Cuba vive, desde o fim do apoio soviético ao país, um grande desafio para alimentar o seu povo. Todavia, mesmo diante dessa dificuldade, em Cuba, os produtos transgênicos são proibidos. Lá, de fato, as sementes são patrimônio da humanidade. Preserva-se a diversidade das sementes e espécies.

A produção de alimentos, em Cuba, acontece de forma diversificada. Há “granjas”, grandes fazendas do Estado, que produzem cana-de-açúcar, tabaco, arroz e gado. Poucas pessoas, com implementos agrícolas, garantem uma grande produção para o abastecimento de toda a população ou industrializa os seus produtos de exportação, como o açúcar e os famosos charutos e rum cubanos. Há pequenas, médias e grandes CCS – Cooperativas de Crédito e Serviço – que reúnem muitas famílias de pequenos proprietários; são empreendimentos mistos: privado e estatal. O cultivo é feito em sistema de rodízio. Por exemplo, ara-se um pedaço de terra, planta banana (só um pé em cada cova, 1,5 metro entre as fileiras, pois assim produz mais). Após a colheita, ara-se novamente a terra e planta-se uma nova cultura que pode ser mandioca, ou milho, depois feijão, tomate, e assim por diante. Deste modo, é preservada a fertilidade da terra. Há ainda as “fincas”, que são pequenas chácaras, nas quais a agricultura familiar é tocada por uma, duas ou três pessoas. Em Cuba a maior parte da terra rural pertence ao Estado. É muito raro o comércio de terras. O agricultor possui, geralmente, apenas o usufruto da área em que trabalha.

Atualmente o Estado cede terra para usufruto por três anos. Se a pessoa progride, passa a ter direito sobre aquela porção de terra. Se não, a terra é devolvida para o Estado que a repassa para outro.

Todos os trabalhadores, tanto do campo quanto os da cidade, têm todos os direitos trabalhistas respeitados. Aposentadoria aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, férias mesmo para aqueles que trabalham por conta própria, saúde e educação, licença maternidade de 1 ano para as mães. Em Cuba há apenas 3% de desempregados.

Após a queda do socialismo real, em novembro de 1989, Cuba entrou em um Regime Especial. A agricultura urbana é incentivada e está sendo desenvolvida para melhorar a alimentação do povo da cidade. Lotes vagos, fundo de quintal e pequenos espaços de terra na cidade estão sendo aproveitados na produção da horticultura. Há técnicos agrícolas que orientam o plantio. Sementes são doadas. Fertilizante orgânico e húmus a partir de minhocas chinesas garantem o êxito da produção de verduras.

10) Economia cubana

Em Cuba a economia é estatal. Cada pessoa só pode ter uma casa e os que têm, só podem ter um carro. Existem diversos mecanismos para se impedir a acumulação de riquezas. Com uma economia tão “engessada” diriam os economistas de plantão, Cuba cresceu mais de 12,5% no ano passado.

Em Cuba é proibido enriquecer-se, pois o enriquecimento de uns gerará o empobrecimento de outros. Para garantir esse princípio, uma série de medidas econômica é tomada. Por exemplo, de dois em dois anos, mais ou menos, muda-se moeda para evitar acumulação. Quem juntar dinheiro em casa, ainda que pouco-a-pouco, vendendo artesanato, com táxi, turismo, só poderá trocar pouco dinheiro velho pelo novo. Assim controla e impede a acumulação.

Em 2005, foi proibido o comércio com dólar em Cuba. Agora o turista é obrigado a trocar o dólar para “peso convertible” com uma desvalorização de 20%, isto é, U$1,00 vale 0,80 de peso “convertible”. Este vale 24 “pesos nacionais”, que é a moeda utilizada pelos cubanos. Uma pessoa cubana paga em peso nacional a maioria dos produtos. Um estrangeiro paga em peso “convertible”.

É proibida a existência de classes entre os cubanos. O salário-mínimo está em 225,00 pesos nacionais por mês, piso mínimo para os aposentados. Há acréscimos como prêmio aos melhores funcionários. Uma pessoa não consegue ganhar mais do que 900,00 pesos nacionais por mês, incluindo todos os incentivos e prêmios por mérito. As empresas estatais dão “estímulos”, tais como cesta-básica, direito de fazer um curso especial em Cuba ou no exterior.

Em Cuba as tarifas por serviços públicos são baixíssimas. A tarifa de energia é de 9,00 pesos nacionais (cerca de 35 centavos de real) para 100 quilowatts de energia. Tanto as famílias quanto as empresas pagam o mesmo valor por 100 quilowatts. Não é como em Minas Gerais, onde as famílias pagam de 6 a 10 vezes mais do que o que pagam as empresas e cujas contas dos serviços públicos essenciais sugam grande parcela da renda das pessoas. Paga-se muito pouco também pelo consumo de água e gás de cozinha.

Os cartões de crédito – exceção feita ao American Express e aos emitidos nos Estados Unidos – são aceitos em Cuba, em muitos lugares.

Muitos se perguntam como pode-se viver com tão pouco em Cuba. O incrível é que não há violência no país, pelo rosto vê-se que as pessoas gozam de boa saúde, todos estudam ou só não estuda quem não quer. Quase todos têm trabalho. Não falta alimento nutritivo para ninguém. Só não há luxo e desperdício alimentar. Como a educação e a cultura são prioridades do governo os cubanos pagam muito barato para entrar nos teatros, nos museus, e em todos os locais que custam mais caro para os turistas. Esse pode ser um exemplo a ser seguido aqui no Brasil. Para um brasileiro é muito caro pagar para assistir a um show que os estrangeiros, cheios de dólares acham muito barato no Rio de Janeiro ou para entrar em uma igreja histórica em Ouro Preto. Por isso já cantou Elis Regina que “o Brasil não conhece o Brasil”.

Se olharmos bem, após conhecer Cuba, podemos ver que o Brasil é um país para poucos. Cuba é um país para todos. Uma cubana nos provocou: “O Brasil é um país lindo, mas me dói o coração e me deixa indignada ver os deputados brasileiros aumentarem em quase 100% seus próprios salários, já astronômicos. Isso é uma desumanidade gritante. Não entendo como o povo brasileiro não se levanta contra essa e tantas outras injustiças.”

Assim, volto ao Brasil, cheio da energia boa que transcende Havana. Deixamos em terras cubanas novos amigos, aqueles que tanto como nós admiram Ronaldinho, o futebol brasileiro, o samba e algumas telenovelas brasileiras veiculadas em Cuba. A maioria dos cubanos admira a Teologia da Libertação, frei Betto, Leonardo Boff, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, o MST e os Movimentos Populares do Brasil. Isso fortalece os nossos laços de amizade e a vontade de voltar ao país que recebe a todos os brasileiros como irmãos.

Engana-se, vou arriscar um palpite, quem pensa que Cuba esfacela-se após Fidel Castro. A admiração e o respeito que os cubanos tem pelo Grande Comandante, a ponto de o chamarem de “nosso pai”, garantirão a firmeza na marcha socialista mesmo após sua morte. Fidel está internalizado no povo e será muito mais vivo e forte após sua morte. Em Cuba pode-se afirmar, sem sobra de dúvidas, que há 11 milhões de defensores da Revolução. Quem viver verá!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Reflexões do companheiro Fidel

Reflexões do companheiro Fidel
Carne para canhão para o mercado


Talvez alguns governos desconheçam os dados concretos, por isso, consideramos muito oportuno a mensagem de Raúl indicando a posição de Cuba. Abordarei aspectos que não podem ser tratados em uma declaração oficial, precisa e breve.


O governo da Geórgia não teria lançado jamais suas forças armadas contra a capital da República Autônoma de Ossétia do Sul ao amanhecer do dia 8 de agosto para o que chamou de restabelecimento da ordem constitucional, sem a prévia concertação com Bush, quem o passado mês de abril em Bucareste comprometeu o seu apóio ao presidente Saakashvili para o ingresso de Geórgia na NATO, o que equivale a um punhal com gume que se tenta cravar no coração da Rússia. Muitos Estados europeus membros dessa organização militar se preocupam seriamente pela manipulação irresponsável do tema das nacionalidades, cheio de potenciais conflitos, que na própria Grã Bretanha poderia levar à desintegração do Reino Unido. A Iugoslávia foi dissolvida através desta via; os esforços de Tito por evitá-lo foram inúteis após a sua morte.

Por que era preciso acender o paiol do Cáucaso? Quantas vezes irá o cântaro à fonte antes de deixar a asa? A Rússia continua sendo uma poderosa potência nuclear. Tem milhares de armas desse tipo. Devo lembrar que, por outro lado, a economia de Ocidente extraiu ilegalmente desse país mais de 500 bilhões de dólares. Se a Rússia não é mais hoje o fantasma do comunismo; se já não apontam direitamente para os alvos militares e estratégicos da Europa mais de 400 plataformas nucleares que foram desmanteladas após o desaparecimento da URSS, por que insistir em cercá-la com um escudo nuclear? O velho continente também precisa de paz.

As tropas russas que se encontravam na Ossétia do Sul estavam deslocadas em uma missão de paz internacionalmente reconhecida; não disparavam contra ninguém.

Por que a Geórgia escolheu o dia 8 de agosto, quando eram inaugurados os Jogos Olímpicos de Pequim para ocupar Tsjinvali, a capital da república autônoma? Esse dia, 4 bilhões de pessoas em todo o mundo assistiram pela televisão ao maravilhoso espetáculo com o qual a China inaugurou esses jogos. Só o povo dos Estados Unidos não pôde assistir nesse dia a transmissão direita e ao vivo da estimulante festa de amizade de todos os povos do mundo que foi realizada lá. O monopólio sobre os direitos de transmissão foi adquirido por um canal televisivo mediante o pagamento de 900 milhões de dólares e desejava obter o maior lucro comercial por minuto de transmissão. As empresas de concorrência fizeram revanche divulgando nessa hora notícias da guerra no Cáucaso que não eram exclusivas de ninguém. Os riscos de um conflito sério ameaçavam o mundo.

Bush se pôde desfrutar do espetáculo como convidado oficial. Mesmo, no domingo dia 10, dois dias e meio mais tarde, era visto agitando bandeiras, fingindo ser o paladino da paz e pronto para se deleitar com as vitórias dos magníficos atletas norte-americanos, que eram vistos por seus olhos, acostumados a manchá-lo tudo, como símbolo do poder e da supremacia de seu império. Em seus momentos de lazer, mantinha conversas prolongadas com os funcionários subordinados em Washington, ameaçava Rússia e encorajava os discursos, humilhantes para esse país, do representante dos Estados Unidos no Conselho da Segurança das Nações Unidas.

Alguns dos antigos países que faziam parte do campo socialista ou da própria URSS, hoje atuam como protetorados dos Estados Unidos. Seus governos, impulsionados por um ódio irresponsável contra a Rússia, como é o caso da Polônia e da República Tcheca, assumem posições de apoio total a Bush e ao ataque inesperado contra Ossétia do Sul por Saakashvili, um aventureiro de estranha historia, quem nasceu sob o socialismo em Tbilisi, capital de seu país, formou-se como advogado numa universidade de Kiev, freqüentou cursos de pós-graduação em Estrasburgo, Nova York e Washington. Exercia essa profissão em Nova York. Caracteriza-se por ser um georgiano ocidentalizado, ambicioso e oportunista. Regressou a seu país apoiado pelos ianques e pescou no rio revolto da desintegração da União Soviética. É eleito Presidente da Geórgia em janeiro de 2004.

Depois dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, o seu país é o que mais soldados tem na aventura bélica do Iraque, e não o faz precisamente por espírito internacionalista. Quando Cuba, ao longo de quase dois decênios, enviou centenas de milhares de combatentes a lutar em favor da independência e contra o colonialismo e a apartheid na África, jamais procurou combustível, matérias-primas nem mais-valia; eram voluntários. Dessa maneira foi forjado o aço de nossos princípios. O que é que fazem no Iraque os soldados georgianos senão apoiar uma guerra que tem custado a esse povo centenas de milhares de vidas e milhões de danificados? Quais os ideais que foram defender nesse país? É lógico demais que cidadãos de Ossétia do Sul não desejem ser enviados como soldados a combater no Iraque ou noutros pontos do planeta ao serviço do imperialismo.

Saakashvili jamais teria se lançado por decisão própria à aventura de enviar o exército georgiano a Ossétia do Sul, onde teria de enfrentar as tropas russas que se encontram ali como forças de paz. Não se pode brincar com a guerra nuclear nem premiar o fornecimento ao mercado de carne para canhão.

Esta reflexão já estava redigida quando Bush falou às 17h30, hora de Cuba. Nada desdiz aquilo que é analisado nesta reflexão; só que hoje a guerra midiática do governo dos Estados Unidos é ainda mais intensa. É a mesma manobra pré-desenhada que não engana ninguém.

Os russos declararam com absoluta clareza que a retirada dos invasores ao ponto de partida é a única solução decorosa possível. Tomara que os Jogos Olímpicos possam continuar sem serem interrompidos por uma gravíssima crise. O partido de vôlei feminino contra uma boa equipe dos Estados Unidos foi fenomenal, e ainda não começou o beisebol.

Fidel Castro Ruz



sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Descanso

O DESCANSO


Reflexões do companheiro Fidel

Ontem terça-feira tinha um acúmulo de telexes com notícias sobre a reunião no Japão das potências mais industrializadas. Deixarei o material para um outro dia, se não virar fiambre. Decidi descansar. Preferi me reunir com o Gabo e sua esposa, Mercedes Barcha, que estão de visita em Cuba até ao dia 11. Quanta vontade tinha de intercambiar com eles para rememorar quase 50 anos de uma amizade sincera!


Nossa agência de notícias, sugerida pelo Che, acabava de nascer, e contratou, entre outros, os serviços de um modesto jornalista de origem colombiana, chamado Gabriel García Márquez. Nem Imprensa Latina nem o Gabo podiam supor que tinha um Nobel pelo meio; ou talvez ele sim, com a “descomunal” imaginação do filho do telegrafista no correio de um pequeno povoado da Colômbia, perdido entre os latifúndios bananeiros de uma empresa ianque. Partilhava sua sorte com um monte de irmãos, como era costume, e apesar disso seu pai, um colombiano que desfrutava do privilégio de ter emprego graças ao teclado telegráfico, pôde enviá-lo a estudar.

Eu vivi uma experiência ao invés. O correio com seu teclado telegráfico e a escolinha pública de Birán eram as únicas instalações naquele casario que não constituíam uma propriedade do meu pai; todos os outros bens e serviços de valor econômico eram de Dom Ángel, e por isso pude estudar. Nunca tive o privilégio de conhecer Aracataca, o pequeno povoado onde nasceu o Gabo, embora sim o de celebrar com ele meu 70 aniversário em Birán, aonde o convidei.

Foi igualmente obra da casualidade que, quando por iniciativa nossa se organizava em Colômbia um Congresso Latino-americano de Estudantes, a capital desse país fosse sede da reunião de Estados latino-americanos para criar a OEA, seguindo pautas dos Estados Unidos da América, no ano 1948.

Tive a honra de ser apresentado a Gaitán pelos estudantes universitários colombianos. Ele nos apoiou e nos entregou folhetos do que foi conhecido como a Oração da Paz, discurso proferido por ocasião da Marcha do Silêncio, a multitudinária e impressionante manifestação que desfilou por Bogotá, em protesto contra os massacres de camponeses feitos pela oligarquia colombiana. O Gabo estava naquela marcha.

Germán Sánchez, o atual embaixador cubano na Venezuela, transcreve em seu livro Transparência de Emmanuel, parágrafos textuais do que narrou o Gabo a respeito daquele episódio.

Até aqui a casualidade.

Nossa amizade foi fruto de uma relação cultivada durante muitos anos em que o número de conversações, sempre para mim amenas, somou centenas. Falar com García Márquez e Mercedes sempre que vinham a Cuba —e era mais de uma vez por ano— convertia-se numa receita contra as fortes tensões em que de forma inconsciente, mas constante, vivia um dirigente revolucionário cubano.

Na própria Colômbia, por ocasião da IV Reunido de Cúpula Ibero-americana, os anfitriões organizaram um passeio de carruagem pelo recinto amuralhado de Cartagena, uma sorte de Havana Velha, relíquia histórica protegida. Os companheiros da Segurança cubana me tinham dito que não era conveniente participar do passeio programado. Pensei que se tratava de uma preocupação excessiva, visto que por demasiada compartimentação os que me informaram desconheciam dados concretos. Eu sempre respeitei sua profissionalidade e cooperei com eles.

Chamei o Gabo, que estava por perto, e lhe disse brincando: “Vem conosco nesta carruagem para que não nos disparem!” E assim o fez. A Mercedes, que ficou no ponto de partida, acrescentei-lhe no mesmo tom: “Você será a viúva mais jovem.” Não se esquece disso! O cavalo partiu coxeando com sua pesada carga. Os cascos escorregavam no pavimento.

Depois soube que ali aconteceu a mesma coisa que quando em Santiago do Chile uma câmara de televisão que continha uma arma automática apontou para mim em uma entrevista de imprensa, e o mercenário que a operava não se atreveu a disparar. Em Cartagena estavam com fuzis telescópicos e armas automáticas emboscados em um ponto do recinto amuralhado, e mais uma vez tremeram os que deviam apertar o gatilho. O pretexto foi que a cabeça do Gabo se interpunha obstruindo a visão.

Ontem, durante nossa conversação, rememorei e lhes perguntei a ele a e Mercedes —campeã olímpica dos dados— sobre um monte de temas vividos dentro e fora de Cuba em que estivemos presentes. A Fundação do Novo Cinema Latino-americano, criada por Cuba e presidida por García Márquez, localizada na antiga fazenda Santa Bárbara —histórica pelo positivo e negativo de seus antecedentes no primeiro terço do século passado—, e a Escola do Novo Cinema Latino-americano que dirige essa Fundação, e está localizada nas proximidades de San Antonio de los Baños, ocuparam um espaço do nosso encontro.

Birri, com sua longa barba preta, hoje tão branca como a neve, e outras muitas personagens cubanas e estrangeiras, passaram por nosso reconto.

Gabo ganhou respeito e admiração perante meus olhos por sua capacidade para organizar a escola de forma meticulosa e sem esquecer um só detalhe. Eu o tinha suposto, por preconceito, um intelectual pleno de maravilhosa fantasia; ignorava quanto realismo tinha em sua mente.

Dezenas de acontecimentos dentro e fora de Cuba, em que ambos estivemos presentes, foram mencionados. Como acontecem coisas em dezenas de anos!

Duas horas para conversar, como é de supor, não bastaram. A reunião tinha começado às 11h35. Convidei-os para almoçar, algo que nunca fiz com visitante algum durante estes quase dois anos, pois não pensara nisso nunca. Compreendi que eu estava realmente de férias e lhos disse. Improvisei. Consegui resolver. Eles almoçaram o que quiseram, e por minha parte cumpri a dieta disciplinadamente, sem me sair uma polegada, não para acrescentar anos à vida, senão produtividade às horas.

Mal eles chegaram, entregaram-me um pequeno e agradável presente, embrulhado em um papel de atraentes e vivas cores. Continha pequenos volumes, um bocado maiores, mas menos alongados do que um cartão postal. Cada um tinha entre 40 e 60 páginas, em letra pequenina mas legível. São os discursos pronunciados em Estocolmo, capital da Suécia, por cinco Prêmios Nobel de Literatura dos outorgados nos últimos 60 anos. “Para que tenhas material de leitura” —disse-me a Mercedes ao entregar-mo.

Pedi-lhes mais dados sobre o presente antes que ambos os dois fossem embora às cinco horas da tarde. “Passei as horas mais agradáveis desde que adoeci há quase dois anos” —disse-lhes sem hesitar. É o que senti.

“Haverá outras”, ―respondeu o Gabo.

Mas minha curiosidade não cessava. Enquanto caminhava, um bocado depois, pedi-lhe a um companheiro para trazer o obséquio. Consciente do ritmo com que tem mudado o mundo nas últimas décadas, perguntava-me: o quê pensaram alguns daqueles brilhantes escritores que viveram antes desta época turbulenta e incerta da humanidade?

Os cinco Prêmios Nobel escolhidos na pequena coleção de discursos que tomara possam ler um dia os nossos compatriotas, por ordem cronológica, foram:

William Faulkner (1949)

Pablo Neruda (1971)

Gabriel García Márquez (1982)

John Maxwell Coetzee (2003)

Doris Lessing (2007)

O Gabo não gostava de proferir discursos. Passou meses à procura de dados —lembro-me disso—, angustiado pelas palavras que devia pronunciar para receber o Prêmio. A mesma coisa lhe aconteceu com o breve discurso que devia dirigir no jantar que lhe ofereceram depois do Prêmio. Se esse tivesse sido seu ofício, com certeza que o Gabo teria morrido de um infarte.

Não deve se esquecer que o Nobel é outorgado na capital de um país que não tem sofrido os estragos de uma guerra em mais de 150 anos, regido por uma monarquia constitucional e governado por um partido social-democrata onde um homem tão nobre como Olof Palme foi assassinado por seu espírito solidário com os países pobres do mundo. Não era fácil a missão que o Gabo devia cumprir.

Nada Neruda, militante do Partido Comunista, quem o recebe nos dias gloriosos de Salvador Allende, quando o fascismo tentava se apoderar do Chile, e a Gabriel García Márquez, genial e prestigiosa pena de nossa época.

Não é preciso dizer como pensava o Gabo. Basta transcrever simplesmente os parágrafos finais do seu discurso, uma jóia da prosa, ao receber o Prêmio Nobel a 10 de dezembro de 1982, enquanto Cuba, digna e heróica, resistia o bloqueio ianque.

“Um dia como o de hoje, meu mestre William Faulkner disse neste lugar: ‘Nego-me a admitir o final do homem’” —afirmou.

“Não me sentiria digno de ocupar este sítio que foi dele se não tivesse a consciência plena de que por primeira vez desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se negava a admitir há 32 anos é agora nada mais do que uma simples possibilidade científica. Perante esta realidade inverossímil que através de todo o tempo humano deveu de parecer uma utopia, os inventores de fábulas que todo o acreditamos nos sentimos com o direito de crer que ainda não é tarde demais para começar a criação da utopia contrária.

“Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém possa decidir por outros até na forma de morrer, onde realmente seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham finalmente e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.”

Fidel Castro Ruz

Fonte: ACN - Agência Cubana de Notícias

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Uma visâo sobre Cuba

Uma visão sobre Cuba






Participei de um grupo de mineiros que esteve em Cuba do dia 20 de janeiro a 5 de fevereiro de 2008, nas Brigadas de Solidariedade. A carta renuncia de Fidel e os comentários da imprensa e das diversas pessoas que encontro, me levaram a escrever este texto, considerando o que vivi, vi, ouvi, observei e estudei.

Como todas (os) brasileiras (os), influenciadas (o) pela intensa propaganda, fomos a Cuba procurando a miséria e a ditadura. E, no nosso subconsciente, o povo deveria ser muito passivo e muito bronco, para manter uma ditadura de 49 anos.

E o que encontramos? Tivemos um choque pois encontramos um povo com um nível cultural bem acima da media do povo brasileiro. Tivemos liberdade de ir e vir, de bisbilhotar, entrar em todos os lugares e de conversar com todos. Alias, ate de forma muito invasiva, entravamos nas casas, nas escolas infantis, nos n museus. Procurávamos crianças e adultos de pés no chão, mendigando, dormindo debaixo de marquises, casas miseráveis. Só então entendemos a verdade do outdoor próximo ao aeroporto: “Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma e cubana”. Outro: “A cada ano, 80 mil crianças morrem vitimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas e cubana”. E nos sabemos que milhares delas são da 8a. economia do mundo, a brasileira.

Além disto, chegamos um dia apos o encerramento do processo eleitoral, com a eleição do Parlamento, eleição não obrigatória que teve 95% de participação. E, para nossa surpresa, ficamos sabendo que o Partido Comunista Cubano não e uma organização eleitoral e portanto não se apresenta nas eleições e nem postula candidatos. Os candidatos são tirados diretamente, em assembléias publicas nas diversas formas de organizações existentes: do bairro, das mulheres, jovens, estudantes, campesinas. Que depois vão se reunindo por região, estado e finalmente, no nível nacional. Estes representantes nacionais, elegem o presidente e o vice. Todos os representantes podem ser destituíveis, a qualquer momento, pelas suas bases, caso não estejam respondendo ao projeto de sua eleição. E vimos como 46% dos eleitos são mulheres (no Brasil conseguimos as cotas de 30% para disputar e não eleitas). As estruturas de funcionamento são mais próximas de uma democracia direta. Parece-me um contra-senso chamar este processo de ditadura. Seguramente, e diferente da democracia burguesa, onde apos colocar o voto na urna finda a obrigação do eleitor. Os críticos valem-se da mágica de que “o que e bom para os EUA e bom para o resto do mundo”. Desconhecem, e não querem que seja conhecido, outro processo de participação popular, como o Cubano.

Tentando também entender o que víamos, um povo simples e culto, simpático e sem stress, procuramos estatísticas: alfabetização de 99,8% (no Brasil 86,30%) e que de 1959 a 2007, a quantidade de escolas passou de 7.679 a 12.717, os professores passaram de 22.800 para 258.000, com uma população em torno de 11 milhões de habitantes sendo o pais que o maior índice de professores por habitante do mundo. No IDH 2007 da ONU, o Brasil comemorou o fato de figurar em 70º lugar. Cuba figura em 51º lugar. O país conta com 70.594 médicos para uma população de 11,2 milhões (1 médico para 160 habitantes); índice de mortalidade infantil de 5,3 para cada 1.000 nascidos vivos (nos EUA são 7 e, no Brasil, 27); 800 mil diplomados em 67 universidades gratuitas, nas quais ingressam, por ano, 606 mil estudantes. Dados da Unesco em 2002 relatavam que 98% das residências cubanas possuíam instalações sanitárias adequadas (contra 75% das brasileiras). Dados da CIA, central de inteligência americana, estimava em 1,9% o desemprego em Cuba. No Brasil , segundo a mesma fonte, o índice era de 9,6% no ano de 2007. E que, a expectativa de vida ao nascer na ilha era de 77,41 anos e no Brasil era de 71,9 anos.

Esses números a despeito de ser uma pequena ilha, ao alcance de um tiro de canhão disparado de Miami e que resistiu a uma tentativa de invasão norte-americana (Baía dos Porcos, 1961) e a várias outras de assassinato de Fidel Castro e ações terroristas orquestradas pela CIA, ter um bloqueio econômico e político apenas rompido por países com autonomia como Venezuela, Bolívia, China e alguns paises da Europa.

E nos, com a arrogância de quem tem toda a informações pela imprensa livre brasileira (sic) continuávamos procurando outros sinais de desmandos: e os presos políticos?

De fato, há pessoas detidas, mas não pelo que pensam, mas pelo que fazem, como o de organizar grupos financiados pela embaixada dos EUA. Fora isso, todas as personalidades importantes da dissidência estão em liberdade e tem suas atividades políticas como Martha Beatriz Roque, Vladimiro Roca e Oswaldo Paya. E importante ressaltar que Cuba sofreu intensamente com o terrorismo nos últimos 40 anos, perfazendo mais de 3500 mortos. E, fica fácil mostrar a postura dos EUA com documentos oficiais, confirmando o financiamento de cubanos exilados para promover ações contra o governo cubano. O museu na Praia Giron (ou Baia dos Porcos), e um monumento de denuncia as ações terroristas, iniciadas desde 1961 quando o se rompe às relações e se instaura o bloqueio. Em 1963 o democrata Kennedy, aprova o plano de manter todas as pressões possíveis com o fim de perpetrar um golpe de Estado. E, sabemos quantas vezes, ao longo destes anos, tentaram matar Fidel Castro, obrigando-o a sequer ter uma residência fixa. Nos anos 90, a Lei Torricelli reforça o bloqueio econômico e, na seção 1705 diz que “Os Estados Unidos proporcionara assistência governamental adequada para apoiar a indivíduos e organizações não governamentais que promovam uma mudança democrática não violenta em Cuba”. Esta lei vai ser reforçada na administração de Clinton, pela lei Helms-Burton quando diz: “O presidente dos EUA esta autorizado a proporcionar assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos e organizações não governamentais independentes com vistas a construir uma democracia em Cuba”. E, o governo Bush não podia ficar atrás e, em 2004 aprovou um financiamento de 36 milhões de dólares para financiar a oposição a Cuba, em 2005 mais 14,4 milhões de dólares, em 2006 mais 31 milhões de dólares alem do financiamento de 24 milhões de dólares para a Radio e TV Marti, transmitida dos EUA para Cuba neste caso, infligindo a legislação internacional que proíbe este tipo de transmissão. Estes valores são fantásticos -105,4 milhões em apenas 3 anos.

Outra dificuldade e entender o funcionamento da economia cubana. Logo apos a revolução faz-se uma ampla reforma agrária, instalando uma via muito particular no campo, onde de um lado manteve alguns proprietários privados, como o de tabaco, e de outro, constituindo cooperativas voluntárias ao lado das propriedades estatais. O setor serviços foi todo ele estatizado. Apos os anos 90, com as dificuldades dada pela intensificação do bloqueio e com o fim da União Soviética, foi feita uma grande abertura para entrada do capital internacional no setor turismo, sem desconhecer o risco que isto poderia acarretar. O setor de transformação, inicialmente todo ele estatizado, hoje tem tido parcerias.

Com o nosso olhar de classe media, que podemos fazer uma viagem internacional, nos chocava alguns problemas com a vida cotidiana como habitações pobres, transporte publico precário, limitações econômicas para se ter ate papel higiênico (isto deixava a todos pensando, pobrezinho dos cubanos). Isso é verdadeiro, alem destes problemas da vida cotidiana, vários outros nos foram apresentados pelo secretario do partido comunista, que fez uma palestra para os brigadistas: o aumento da prostituição, dos pequenos delitos, da corrupção e da desigualdade social. Quando se investiu no turismo e posteriormente, com a criação da moeda turística (o peso conversível), cresce de um lado a entrada de divisas e de outro, possibilitou um rendimento, para os trabalhadores destes setores, acima do restante da população, ocasionando um aumento da desigualdade social. Afirma ele que vivem numa quádrupla ilha: geográfica; única nação socialista do Ocidente; órfã de sua parceria com a União Soviética e bloqueada há mais de 40 anos pelo governo dos EUA. E buscando respostas coletivas para estes problemas, desencadearam um processo interno de críticas e sugestões à Revolução, através das organizações de massa e dos setores profissionais. São mais de 1 milhão de sugestões que pretendem trabalhar, mas mantendo os princípios do socialismo: solidariedade e não a competitividade, o coletivo e não o individualismo.

Mas, para nos brasileiros de classe media (somos quantos? Depende da estatística mas varia de 5 a 10%), que podemos fazer uma viagem internacional e que não conhecemos a realidade dos 90% do povo brasileiro que não tem como pagar um plano de saúde, que tem pouca alimentação, que fica com os restos do desperdício dos 10%, com uma educação precária, e difícil entender a lógica econômica de uma sociedade voltada para os 100% da população. E ficamos horrorizados por eles não terem papel higiênico. Mas não nos deixam horrorizados que tenham bibliotecas e livrarias em toda escola e em toda cidadezinha. Ou que tenham acesso à saúde e educação da melhor qualidade, habitação com saneamento e aparelhos eletrodomésticos novos para economizar energia. Ou, que não tenhamos encontrado erosão por todos os lugares que andamos.

E a busca do conhecimento? E as escolas? Como e possível ver os círculos infantis, crianças de 1 a 4 anos, assentadas ouvindo historias, sem a professora estar gritando, mandando ficarem quietas? E ver os portões destas escolas abertas e as crianças não fugirem? Como e possível não ter o stress que, temos em nossas escolas? E, conversando com as crianças do pré-escolar e do escolar (5 a 11 anos), ficávamos surpresas com as perguntas cheias de inteligência e informação sobre nosso pais, que faziam aquelas pequenas crianças? E, como nos permitiam entrar nas salas de aulas, fotografar, bisbilhotar as bibliotecas onde encontrávamos livros de Marx a Lênin, de Jorge Amado, Machado de Assis, a Shakespeare. Imagine isto aqui no Brasil? Ficávamos encantadas. Eu, como professora da UFMG, tida como uma das melhores do Brasil, me encantava com aquelas bibliotecas. E as livrarias? Na pequenina Caimito onde ficava o acampamento, literalmente invadimos uma livraria, comprando tudo quanto e tipo de livro, pela sua qualidade e pelo preço (comprei um livro do Boaventura de Souza Santos por 8 pesos cubanos – que equivale mais ou menos a R$ 0,50 -, outro do Che Guevara sobre Economia Política de 397 págs. por 22 pesos cubanos, portanto em torno de R$ 1,40 (e dai para frente).

E o investimento na potencialidade do ser humano não pára ai. O desenvolvimento das artes – dança, pintura, musica, poesia, desportos – e encontrado em cada escola, em cada esquina, em cada cidade.

E claro que também tivemos as frustrações no contato com algumas pessoas, especialmente em Havana onde impera o espírito da cidade turística, onde se busca sempre ganhar alguma coisa, passar a perna, apenas diferenciando pela intensidade dos problemas, com as nossas cidades turísticas como Rio de Janeiro. Só que e mais ingênuo, meio estilo anos 60. De todo jeito, frustrante. Também nos entristeceu encontrar tantos cubanos sonhando em sair da ilha, acreditando, por exemplo, que o Brasil é um paraíso, visão que tem através das telenovelas (que todos assistem). E assim, uma sociedade muito diferente que nos estimula e atrae. Alias, nada melhor para expressar isto do que a crônica do Clovis Rossi (O “pop star” se aposenta) do dia 20 de fevereiro na Folha de São Paulo contando o episodio de um encontro do GATT, que contava com a presença dos chefes de estados, diferentes autoridades mundiais e jornalistas de todo o mundo. Onde o burburinho na sala do encontro e na sala dos jornalistas era enorme, com a atenção dispersa. Quando se anunciou Fidel Castro houve um grande burburinho, com todos procurando o melhor lugar para assisti-lo e “ao terminar, uma chuva de aplausos, inclusive de seus pares, 101% dos quais não tinham nem nunca tiveram nenhum parentesco e/ou simpatia com o comunismo. Difícil entender o que aconteceu ali.”

Para terminar, quero colocar uma idéia desenvolvida na mesa redonda integrada por vários cientistas cubanos e sintetizada pelo jornalista Jesus Rodrigues Diaz, falando sobre o potencial no desenvolvimento do conhecimento quando ele se da de forma coletiva. E que no capitalismo existe uma grande contradição entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação. Dai, a reação do capitalismo ao papel crescente do conhecimento na economia e a busca da privatização do conhecimento, principalmente através da propriedade intelectual, das barreiras regulatórias e do roubo dos cérebros.

“Temos que insistir também que, quando falamos do Potencial Humano criado pela revolução, não nos referimos exclusivamente à quantidade de conhecimentos técnicos incorporados em nossa população. Mais importante ainda é a semeadura de valores éticos, de atitudes ante a vida. Na sociedade do conhecimento faz falta um cidadão com vocação de aprender e de criar, e de levar seus conhecimentos aos demais seres humanos. Os conhecimentos técnicos nos podem dizer como se trabalha, porem são os valores os que nos fazem compreender porque se trabalha e deles tiramos as motivações e as energias para seguir adiante.

Que se passa agora se os conhecimentos se voltem ao fator mais importante da produção, inclusive os bens de capital? Não e difícil de prever. A resposta do capitalismo e a intenção de converter também o conhecimento em Propriedade Privada. Porem, a boa noticia e que isto não vai funcionar. O conhecimento não e igual ao Capital. Esta nas pessoas e não se pode facilmente privatizar. O conhecimento requer circulação e intercambio amplo. As leis da propriedade intelectual inibem este intercambio. O conhecimento e validado pela sua aplicação social, não pela sua venda. O uso amplo dos produtos do conhecimento e o que os potencializa”, termina o jornalista. Esta e a grande limitação do raciocínio capitalista em entender a potencialidade da criação coletiva. Ignoram que a criação humana coletiva tem muito mais possibilidades do que as leituras positivistas do conhecimento.

O maior feito desta pequenina ilha, com um povo cheio de dignidade e coragem, terá sido o de mostrar ao mundo que e possível construir uma sociedade baseada no ser humano e não na mercadoria e na acumulação de capital. E isto ameaça o mundo capitalista, e é rejeitada pela imprensa burguesa e pelos setores médios que querem impor as condições de suas vidas para a totalidade do mundo. Mas, Cuba não esta só. Existe hoje uma rede internacional de solidariedade ocasionada pelos médicos e professores cubanos em mais de 100 países, pela Operação Milagros, pelas brigadas de solidariedade e por todos aqueles que acreditam que Um Outro Mundo é Possível e que lutam pela sua construção.

Por: Dirlene Marques

Dirlene Marques: Economista, professora da UFMG, coordenadora do Fórum Social Mineiro

Cuba Realidade

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Parte 1



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Parte 5

Fonte: SBT

quarta-feira, 11 de junho de 2008



Amigas e amigos, companheiras e companheiros,

peço-lhes, como coordenador do Comitê dos 5 Patriotas, o primeiro comitê brasileiro [constituído em 2001] pela libertação dos cinco cubanos anti-terroristas, presos cruel e injustamente há quase 10 anos em cárceres dos Estados Unidos, o máximo de difusão do material anexo. E mais, juntem-se às manifestações públicas que estaremos organizando nos próximos dias e que serão oportunamente divulgadas.
Trata-se de combater uma brutal e ignominiosa injustiça. As draconianas penas impostas a Gerardo, Ramon, Antonio, Fernando e Rene, somadas, alcançam 4 prisões perpétuas mais 77 anos. E qual o 'crime' que cometeram? Investigar, prevenir, revelar e alertar o governo de Cuba e também dos Estados Unidos dos constantes planos terroristas das organizações contra-revolucionárias sediadas em Miami contra pessoas e bens cubanos.
A decisão do painel de três juízes do Undécimo Circuito Judicial de Atlanta de 4 de junho ratifica, com ressalvas, o veredicto do tribunal de Miami. É público e notório que o processo se desenrolou no ambiente totalmente hostil de Miami, testemunhas e jurados fortemente pressionados, campanha cerrada da mídia, onde o devido processo legal de imparcialidade, ampla defesa, correta análise das provas e justa aplicação das penas, garantido pela Constituição dos Estados Unidos, foi flagrantemente violado.
Aos amantes da justiça, aos defensores dos direitos humanos, aos lutadores contra o terrorismo cabe a urgente tarefa de se juntar ao clamor universal pela libertação dos 5 Patriotas.

Max Altman
Comitê dos 5 Patriotas

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[começo com as comoventes mensagens de René González e Gerardo Hernéndez, para em seguida reproduzir a entrevista com o dr. Leonardo Weinglass, eminente advogado norte-americano, patrono de Antonio Guerrero]
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Mensagem de René González:

A todos que nos amam

Novamente desaba sobre nós e sobre nossos entes queridos a baixeza daqueles que pretendem, por meio deste caso, satisfazer seus instintos de vingança contra nossa Pátria.
Quando se trata de santificar o terrorismo e os crimes contra o povo de Cuba, políticos, juízes, procuradores e funcionáriuos ada ordem não encontram limites para mentir, distorcer, confabular e fazer troça das leis que dizem representar. Poucas vezes se pôs tão a nu a ficção dos três poderes do Estado, como quando se apela à defesa, a todo o transe, de seus mesquinhos interesses comuns e sacrificam diante deles, solícitos, sua própria vergonha.
Este é o modelo de justiça que se nos pretendem impor, sob o pretexto de nos regatar para a liberdade e a democracia. Ai de Cuba se semelhante coorte de truões, algum dia, recuperasse os tronos do poder, se constituissem em agentes da ordem ou assaltassem o ministério público!
A nossos familiares cujo amor nos sustenta, cuja recordação alimenta nossos espíritos, cujas palavras nos alentam e cujo sofrimento nos dilacera, porém nos compromete, vão nossas expressões de otimismo, a segurança de que nos preservaremos e nossos sentimentos de infinito amor.
Aos nossos amigos em todo o mundo que nos enchem de esperanças, que nos cobrem com seu afeto e que nos oferecem mais carinho do que é possível corresponder, nosso mais profundo sentimento de gratidão e admiração. (g/n)
Ao nosso heróico e nobre povo de cuja história somos depositários, cuja proeza de resistência nos estimula e cuja integridade física e felicidade temos defendido, erguemos a advertência de Che, reiterada desde as entranhas do monstro: "No imperialismo não se pode confiar, mas nem um tantinho assim".
Cerrar fileiras e defender a Revolução, é a única resposta digna a esta canalhice.
Contem conosco.
Hasta la victoria siempre!
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Mensagem de Gerardo Hernández:

Enquanto restar uma só pessoa pelo mundo afora resistindo, nós também vamos resistir até que se faça justiça, não importa quantos anos se passem, 30, 40 ou o que for.
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Leonardo Weinglass [advogado de Antonio Guerrero, um dos 5 Patriotas cubanos, condenado a prisão perpétua mais 10 anos]:



Há 40 páginas de preconceito ideológico na nova sentença de Atlanta



Um painel de 3 juízes do Undécimo Circuito de Apelações de Atlanta ratificou na quarta-feira, 4 de junho, os veredictos de culpabilidade dos 5 antiterroristas cubanos, prisioneiros em cárceres dos Estados Unidos desde setembro de 1998 e anulou a sentença de três deles que deverão ser novamente sentenciados em Miami. Foram ratificadas as sentenças de René González (15 anos) e de Gerardo Hernández (duas prisões perpétuas mais 15 anos). Neste último caso a decisão do painel foi de 2 a 1. Num voto de 16 páginas, a juíza Phyllis Kravitch afirma que o governo dos Estados Unidos não havia apresentado evidências suficientes para provar que Gerardo era culpado de Crime de Conspiração para cometer assassinato.

Os casos de Ramon Labañino (prisão perpétua mais 18 anos), Fernando González (19 anos) e Antonio Guerrero (prisão perpétua mais 10 anos) foram enviados para que a juíza do Tribunal da Flórida proceda a re-sentenciá-los. Será a juíza Lenard quem deverá convocar uma audiência para emitir a próxima sentença. Lenard foi que prolatou em 2001 as draconianas condenações impostas aos 5. A decisão de 99 páginas da Corte de Atlanta, redigida com uma linguagem politizada, alheia a um texto legal, e que favorece explicitamente a posição do governo, resolveu que “careciam de mérito” os argumentos da defesa com relação às acusações em grau de apelação.

Devido à transcendência do tema, oferecemos abaixo a transcrição literal da entrevista que Arleen Rodriguez manteve com o dr. Leonardo Weinglass, advogado de Antonio Guerrero e membro da equipe de juristas que sustenta a defesa dos 5 Patriotas.



AR – Weinglass, ajude-nos a entender o que diz em síntese as 99 páginas da sentença da Corte de Apelações de Atlanta.

LW – Significam, em suma, que as prisões perpétuas de dois, as de Antonio e de Ramon, foram anuladas e há uma previsão para a re-sentença novamente em Miami ante a juíza Lenard. A sentença de Fernando será reduzida.



AR – No entanto, Ramon e Antonio têm acusações distintas de Fernando. O que significa que sejam devolvidos os três a Miami e o que se poderá esperar?

LW – Quando em 1998 os 5 foram presos, o Pentágono e o Ministério de Justiça deram uma declaração dizendo que a segurança nacional dos Estados Unidos não havia sido violada. Agora, depois de 10 anos de prisão, temos uma afirmação de uma corte de alto nível de que não houve espionagem e que nenhuma informação muito secreta havia sido obtida nem transmitida. Isso assim o recebeu a corte e ainda assim decidiu reenviá-los a uma nova sentença. Porém, não seria, neste caso, prisão perpétua, e eles poderiam, inclusive, regressar a casa.



AR – Por que Gerardo não está incluído nesta revisão?

LW – O caso de Gerardo era o caso mais fácil, de acordo com todos os advogados, e poderia ter sido excluído. Entretanto, embora seu caso seja fácil do ponto de vista legal, do ponto de vista político é o caso mais difícil, devido ao clima político existente em Miami. A Corte não teve coragem de deixar de lado uma condenação por conspiração para cometer assassinato no momento em que 4 residentes de Miami foram as vítimas.



AR – O fato de que a Corte de Apelações de Atlanta ter decidido reenviar a Miami, no caso de Ramon, de Fernando e de Antonio, significa que exageraram nas condenações e isto já se constitui em prova de má conduta. Não seria absurdo então que se devolva à própria juíza que impôs penas tão elevadas?

LW – É desafortunado. Nesta decisão de 99 páginas encontra-se que a juíza Lenard cometeu erros ao sentenciar Fernando, cometeu erros ao sentenciar Antonio, cometeu erros ao sentenciar Ramon, cometeu erros nas instruções que deu ao jurado sobre Gerardo e, de acordo com dois dos nossos três juízes, cometeu erros ao negar a mudança de sede. Apesar destes seis ou sete erros sérios, a Corte devolve o caso à juíza Lenard.



AR – Que recursos judiciais sobram?

LW – Temos sim recursos disponíveis. Em primeiro lugar podemos, de imediato, em 24 de junho, pedir a estes três juízes, que reconsiderem sua decisão à luz de muitos dos erros que cometerem nesta decisão exarada, e vamos fazer isto. Se eles não reconsiderarem este arrazoado, teremos então o direito de ir à Corte Suprema dos Estados Unidos para reconsiderar todos ou alguns dos assuntos que temos apresentado, inclusive o foro, a má conduta da Procuradoria, a insuficiência de evidências contra Gerardo e outros assuntos que a Corte de Atlanta decidiu, inclusive o uso de um procedimento secreto entre a juíza e a Procuradoria contra os 5, e também de manter provas secretas que poderiam ter sido entregues à defesa.



AR – Essa sentença se dá num momento em que o povo norte-americano está concentrado no tema eleitoral e talvez não preste atenção a outros assuntos como, ao lado do caso dos 5, outro que chamou a atenção, o possível indulto a Luis Posada Carriles, que está livre nas ruas de Miami, e a gente se pergunta se a equipe de advogados levou em conta a dupla moral do governo estadunidense com relação ao terrorismo, que se torna visível tanto no tratamento do caso dos 5, que são lutadores anti-terriristas e estão presos e não há sentença

Absolutória, e a libertação de um terrorista confesso como Posada Carriles. Isto é levado em conta nas apelações dos advogados?

LW – Na realidade esta contradição, que é muito clara nos fatos que você citou, não está disponível nos autos do caso; no entanto, no voto original do primeiro painel que mereceu nossa apelação, os juízes escreveram uma nota de pé de página na qual se referem a Carriles e então os mencionam como terrorista. Infelizmente, neste voto de 99 páginas não existem essas referências.



AR – Este veredicto coincide com a data de 4 de junho, aniversário de Gerardo. O fato de que o Tribunal confirma a condenação para uma das acusações mais frágeis de todo esse processo, que é a conspiração para cometer assassinato e, em geral, as acusações contra Gerardo, parece um ato deliberado de crueldade contra este jovem lutador antiterrorista. Como o senhor vê esta questão?

LW - Talvez não haja aí um mero acidente. As pessoas inclusive o tomam em conta como uma intenção insensível contra um homem que serviu honradamente seu país. Não obstante, quando você lê todo o voto prolatado, em particular as primeiras 40 páginas, para nós, como advogados, está bem claro que há um preconceito ideológico no texto. E o fato de exarar a decisão no dia do aniversário de Gerardo, pode ser visto como você sugere: um ato intencional.



AR – Que razões poderia nos dar um advogado como Leonardo Weinglass para que possamos seguir acreditando que existe alguma possibilidade de que triunfe a justiça no sistema legal norte-americano, no caso dos 5?

LW – Lamentavelmente, este caso é uma dessas situações em que creio o governo dos Estados Unidos estar utilizando seu sistema de justiça para perseguir um objetivo de política exterior. É por isso a diferença com o caso de Posada Carriles e entre este caso e o caso dos 5. Quando isto sucede historicamente e se revela esta existência de preconceito político, os norte-americanos sentem um grande sentimento de vergonha nas leis e na confiança do sistema de justiça, nos tribunais de justiça.



AR – Se tivesse de dizer numa única frase que opinião merece esse veredicto de 4 de junho ...

LW – Pelo menos Gerardo deveria ter sido absolvido de todas as condenações e todas as prisões perpétuas deveriam ter sido revogadas. Ou seja, ganhamos uma parte pequena do caso por ora, contudo o assunto da sede ainda está vivo e o vamos apresentar novamente ante a Corte Suprema, e, afortunadamente, vamos começar o trabalho de base a fim de que os 5 regressem as suas casas. Estamos preparados para continuar lutando e com sorte vamos conseguir, como o fizemos anteriormente, e como vamos fazer e devemos fazer no futuro. Nós ganhamos a revogação das prisões perpétuas, e isto é uma vitória bastante significativa. Todavia, estamos realmente bastante defraudados por não ter ganhado a parte mais débil do caso apresentado pela Procuradoria, e devíamos tê-la ganhado.



AR – Que é a acusação três, não é mesmo?

LW – Sim, a acusação três. Qualquer advogado que revisse esta acusação, inclusive os procuradores, teriam concluído que não se podia ter perpetrado uma condenação com base na evidência que se apresentou. Um dos juízes escreveu um voto de 16 páginas, e muito claramente, e de forma bastante enérgica e pouco usual, por uma juíza de 85 anos, que foi durante quase um quarto de século, juíza federal de apelações. É um ato ou uma ação histórica levada a efeito por uma juíza na acusação que inclui a conspiração para cometer assassinato. Ela é uma das líderes mais reconhecidas do sistema de tribunais dos Estados Unidos.



AR – É a juíza Kravitch?

LW – Si, Kravitch. Ela foi nomeada por Carter, um homem que crê mais nos direitos humanos que muitos dos outros líderes nacionais. Ela a escolheu de uma corte ou tribunal muito pequeno, na Geórgia, onde ela exercia o direito apesar de se ter graduado com melhor desempenho que seus companheiros de escola, em uma das faculdades de direito mais prestigiosas nos Estados Unidos. Porém ela não encontrava trabalho em nenhum grande escritório de advogados porque era mulher. Ela entende claramente o preço que as pessoas têm de pagar quando são vítimas de um preconceito, e creio que ela traz isto ao seu trabalho como juíza.


População cubana indignada com sentença do Tribunal de Atlanta

Editada dia 05/06/08

Os cubanos amanheceram hoje indignados ao conhecerem a sentença negativa do Décimo Primeiro Circuito da Corte de Apelações de Atlanta, Georgia, contra a liberação de cinco anti-terroristas presos nos Estados Unidos por monitorar ações de grupos extremistas que desejam uma guerra entre Cuba e Estados Unidos, disse WDS.

No ato nacional do 8 de junho, Dia do Jurista Cubano, que pelo segundo ano consecutivo foi celebrado na oriental província de Granma, a jovem advogada Alina Medina lembrou que Gerardo Hernández, Antonio Guerrero, René González, Ramón Labañino e Fernando González (Os Cinco) "trabalhavam nos Estados Unidos para conhecer os planos desenvolvidos nesse país, por grupos terroristas, contra o povo da ilha".

Medina acrescentou "que a Administração de George W. Bush fortaleceu a política agressiva até Mayor de Las Antillas, e multiplicou os recursos destinados à contra-revolução interna".

Ontem, essa Corte de Apelações, formada por três juízes, tornou pública sua sentença, negando os recursos da apelação da defesa dos Cinco, confirmando assim todas as acusações pelas quais eles tinham sido considerados culpados, incluindo as acusações de conspiração para cometer espionagem e a acusação de conspiração para cometer assassinato.

As condenações contra Antonio, Ramón e Fernando foram reenviadas ao Tribunal de Distrito em Miami que originalmente os julgou, para outra sentença. Jorge Mesa, professor de inglês, disse que "Bush e a direita se prepararam, desde a fraude contra Al Gore, para dominar o polêmico sistema judicial estadunidense, que por um lado tem preso cinco honestos homens que lutavam por salvar também vidas norte-americanas e por outro absolve o conhecido terrorista Luis Posada Carriles".

Os cubanos souberam da notícia quando Randy Alonso, coordenador do programa informativo da televisão Mesa Redonda, leu um texto, ao final do espaço de cabo da agência espanhola EFE, no qual um painel de três juízes ratificou os veredictos de culpa e ditou que todos os argumentos apresentados contra a declaração de culpa dos Cinco "precisavam de mérito".

Por: Eduardo Maza
Fonte: WDS

quarta-feira, 28 de maio de 2008

As crianças em Cuba referente a Educação


Eis uma pesquisa Gallup da maior importância.
O Comandante Fidel Castro em sua recente reflexão “Las ideas inmortales de Marti” fez referência a uma pesquisa sobre educação feita pela empresa norte-americana Gallup. Fui conferir a íntegra do levantamento. Não se trata de sondagem levada a cabo por alguma instituição educacional de Cuba. É o Gallup, tradicional firma estadunidense de pesquisas de opinião, portanto, a muitos olhos - os da nossa mídia, por exemplo - insuspeita.
O Gallup propôs 4 perguntas que enumero:
1ª) Tem a maioria das crianças de seu país a oportunidade de aprender e se desenvolver dia após dia, ou não ?
(separado por continentes) Porcentagem média de “sim” dos países em cada região. 2006 e 2007;
2ª) Tem a maioria das crianças de seu país a oportunidade de aprender e se desenvolver dia após dia, ou não?
Respostas “sim” dos países da América do Sul e México;
3ª) Tem a maioria das crianças de seu país a oportunidade de aprender e se desenvolver dia após dia, ou não?
Respostas “sim” dos países da América Central e Caribe;
4ª) É a educação neste país acessível a quem queira estudar, independente de sua situação econômica, ou não?
Respostas “sim”, “não” e “não sei/não respondeu”

Examinem com atenção a posição no ‘ranking’ dos países demonizados, melhor dito, caluniados pela grande mídia (Cuba, Venezuela), e os ‘queridinhos’ desta mesma mídia (Chile, México, Colômbia, Costa Rica ...).
Repasso o levantamento na íntegra, sem tradução. Os gráficos falam por si.
Em outra postagem mostraremos a pesquisa Gallup com a pergunta: As crianças em seu país são tratadas com dignidade e respeito?

April 24, 2008

Latin Americans See Barriers to Educational Opportunity
Only 56% in region say children have chance to learn, grow every day

WASHINGTON, D.C. -- Thanks largely to the rising price of commodities Latin America exports, the region has seen increased economic growth in recent years. Education is one area where this additional income is sorely needed: Gallup finds Latin Americans are less likely than residents of other global regions to say that most children in their country have opportunities to learn and grow every day.

Among the 25 Latin American countries Gallup surveyed in 2006 and 2007, the median proportion of those who respond affirmatively to this question is 56%. In Asia and Europe, the median percentage is about three-fourths of residents, while in Africa it is 60%.

Within the Latin American region, residents in many South American countries are more likely to respond negatively to this question than those from Central American or Caribbean countries. In 6 of the 11 South American countries studied -- including those with the continent's four largest populations: Brazil, Colombia, Argentina, and Peru -- fewer than half of residents say their country's children have opportunities to learn and grow on a daily basis.



In Central America and the Caribbean, results are on average more favorable. At least 8 in 10 respondents in Cuba (96%), Belize (91%), Costa Rica (84%), and Trinidad and Tobago (83%) say most children in their country have a chance to learn and grow every day.



Obstacles Facing Latin America's Children

In many parts of Latin America, the deck is stacked against a child's development from the start. Nils Kastberg, UNICEF's regional director for Latin America and the Caribbean, notes that widespread poverty leads to chronic malnutrition in the first few years of life, which often stunts children's physical and mental development. Across the 24 Latin American countries studied, a median 29% of residents say there were times in the past year when they didn't have enough money to buy food for their families.

Once children do reach school age, many face sharp inequalities in learning opportunities. Gallup asked respondents throughout Latin America if education in their country is accessible to anybody, regardless of their economic situation, and at least half of those surveyed in six Latin American countries say it is not accessible to anyone. Paraguayans and Haitians -- the populations least likely to say children have opportunities to learn and grow -- are also least likely to say education is accessible to anyone. Conversely, nearly all Cuban respondents (98%) and a vast majority of residents surveyed in Trinidad and Tobago (86%) and Venezuela (82%) say education is accessible to anyone. The median figure across 22 Latin American countries is 59%.



In some countries, concentrations of urban poverty severely limit development opportunities for children. For example, in Brazil, where impoverished favelas exist in almost every large or midsized city, the country's urban residents (37%) are less likely than rural residents (55%) to say children have the opportunity to learn and grow every day. Similarly, in Peru 35% of urban residents vs. 52% of those who live in rural areas say children have the opportunity to learn and grow every day.

Survey Methods

Results are based on face-to-face interviews with about 1,000 adults, aged 15 and older, in each of the 25 countries conducted in 2006 and 2007. For results based on each national sample, one can say with 95% confidence that the maximum margin of sampling error is ±3 percentage points. In addition to sampling error, question wording and practical difficulties in conducting surveys can introduce error or bias into the findings of public opinion polls.

Fonte: Max Altman e Lilian Vaz